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segunda-feira, março 26, 2007 

Histeria em Democracia



Vi o programa "Grandes Portugueses" pela primeira vez no seu último episódio.
O suficiente para assistir à histeria de Odete Santos e ao alarme [este mais controlado] dos restantes [excepto JNogueira Pinto e a ambiguidade silenciosa de PPortas]por Salazar ter sido o português mais votado, com uns bons vinte e tal porcento de avanço sobre o egrégio Cunhal.

A pobre Maria Elisa, quando instada a pré-parar a decisão, referiu, antes do resultado do sufrágio, que "este programa não teria sido possível há 50 anos, quando não havia liberdade". Instala-se um ambiente pesadíssimo. Sai o resultado. E a grande verdade é que foi uma goleada, a jogar em democracia [fora de casa, portanto]. Invocou-se o voto de protesto, justificou-se o anti-regime, acusou-se o branqueamento do fascismo, evocou-se a constituição, manifestou-se vergonha da terra e do país.

Tudo disparates, senão vejamos.

A verdade é que Salazar é, incontornavelmente, a figura entre os pares 10+ que reúne mais indefectíveis, logo seguido de Cunhal.
E dos indefectíveis reunidos por cada um dos 10+, Salazar é o que convoca mais sujeitos de estrato e faixa etária consentâneos, respectivamente, com o visionamento do programa e o voto telefónico.
Por outro lado, este fenómeno autogenético de onda ocorreu com a eleição absurda(!) de Matateu como o futebolista português do Século, em programa semelhante do Record Online (eleição essa que, em grau de absurdez, até reputo de superior à de ontem).

Há, de facto, salazaristas por aí. Mas num sufrágio universal e sério, Salazar não sairia, em princípio, o Português do Século.
E se saísse, um estudo sociológico [mais sério que o programa] ao nível das motivações, estas fundadas e/ou infundadas, responderia satisfatoriamente a muitas questões sobre o resultado. Pronto.
Retirar mais ilacções daquele disparate é torná-lo mais sério do que o mesmo pretendeu ser.

Sem mais histerias, pf.

PML

Este comentário foi removido pelo autor.

O mundo que se vê nos jornais e nos livros, as análises racionais e racionalistas de um voto telefónico não são a única variável nesta equação.

O museu ao Salazar não dependeu do voto do sexagenário. A identificação civil de pessoas que entregaram uma declaração na residência oficial do primeiro ministro não foi um programa de televisão. A proibição do MDM de fazer uma banca no Rossio no Dia Internacional da Mulher não foi um programa de televisão. A concentração de mais de 30 militantes do PNR a ameaçar 12 estudantes na Faculdade de Letras enquanto pintavam um mural sobre direitos e liberdades democráticas (com a polícia a assistir calmamente) não foi um programa televisivo, a carga policial sobre os trabalhadores da Pereira da Costa, não foi um programa televisivo.

Meu caro, a RTP é a televisão estatal que promoveu o branqueamento, sim, o branqueamento, da imagem de um ditador fascista, chamando-lhe ditador ou salvador. Na própria linguagem já não ouves "fascismo". Ouves Estado-Novo, reorganização económica, etc e tal.
Crer que isto é um acontecimento isolado não é uma análise racional, é ingénua.
O que se passou ontem é vergonhoso.
E, por favor, não lhe chames histeria. Apesar de tudo, ainda vivem muitos hoje que conheceram o fascismo. Que foram presos, torturados (basta olhar às comemorações dos 40 anos do Dia do Estudante - 24 de Março, em que não faltam relatos deste género), cujos familiares foram brutalmente assassinados e que ontem assistiram, na televisão nacional, à glorificação de um ditador.
Mesmo que por um voto.

Qual glorificação?
O que eu vi ontem foi uma certa vergonha por m resultado (desagradável, é verdade) que seguiu as regras do jogo, normalmente.

E qual branqueamento?
O que é que essas proibições e ameaças têm a ver com o Salazar?

E que culpa tem a RTP?
Ou temos medo da democracia ou não temos medo da democracia.

Eu tenho um tio que foi preso e sujeito a tortura.
Não sinto minimamente que a sua memória ou esforço tenha saído esbatida daquele programa. E, ainda que o sentisse, nunca seria o suficiente para favorecer um corte de emissão porque afinal o resultado é desconfortável.

Ou apanagias, porventura, uma censura quando o resultado sai feio?

O que é que, afinal, deveria ter acontecido. Diz-me.

Perdoa-me o purismo, mas o regime [horríve] que vigorou de 1926 a 1969 não integra o fascismo.
foi cunhado de tradicionalismo portugues, mas proponho, por convenção, usar salazarismo.

As ameaças não têm a ver com o Salazar mas com o recrudescimento de ideologias repressoras que se aproximam vertiginosamente do que foi o antigo regime.

E por antigo regime podes chamar-lhe salazarismo, o que quiseres. O facto é que fascismo se define como um sistema político (originalmente instituído por Mussolini (1883-1945), de quem o Salazar tinha um fotografia na sua secretária)e é caracterizado pela defesa de um nacionalismo exacerbado e pelo exercício de um poder centralizado e ditatorial baseado na repressão de qualquer forma de oposição. Denotas alguma semelhança? É que, neste caso, não há coincidências.

Quanto à RTP, é uma estação de serviço público, como tal tem responsabilidades na concepção e condução dos programas. Na condução do debate ontem, que não foi propriamente pluralista e deveria ter feito, à imagem do que aconteceu na Alemanha e em França, em que se estabeleceram critérios, deixando de fora, por exemplo, o Hitler.
´Não se trata de censura quando o resultado sai feio. Trata-se da responsabilidade que a RTP tem, sistematicamente, esquecido enquanto estação de serviço público, de qual o Prós e Contras é o mais cabal exemplo.

Não gosto, por razões óbvias do Salazar.
Mas não o compararia ao Hitler.
Por outro lado, preocupar-me-ia, aí sim, se as regras do jogo impusessem deixar alguém de fora.
Conheço umas quantas pessoas, da mais variada área política, que se dedicaram a enviar sms´s a dizer que estavam sem bateria e que necessitavam de ser contactadas para [o n.º de votação no salazar].

Isto pode ser qualificado de uma valente palermice, mas não me parece que seja um sintoma de um país politicamente doente.

Já me parece triste a reportagem do Público sobre os estudantes de extrema-direita que pretendem ganhar a associação de Letras.
No dia em que são publicadas ambas as notícias, a conclusão certa é que o Público está cada vez mais sensacionalista.

Talvez aí o país esteja doente, quando a comunicação social é deplorável e quando um idiota que gere a Sonae é recebido em plena assembleia porque o é e quando a fuga ao fisco é a que temos.

No meio deste "teatro", dar valor a um concurso palerma e a um gajo que já morreu é desviar a atenção dos verdadeiros problemas do país.

E os verdadeiros problemas do país não passam por termos 41% de salazaristas (que nem, ainda bem, temos).

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